"A educação pelo trabalho é mais do que uma educação comum pelo trabalho manual, mais do que uma pré-aprendizagem prematura; baseada na tradição, mas prudentemente impregnada pela ciência e pela mecânica contemporâneas, ela é o ponto de partida de uma cultura cujo centro será o trabalho."

Célestin Freinet

(A Educação do Trabalho, Ed. Martins Fontes, 1998, pg. 315)

segunda-feira, 17 de março de 2014

MINICURSO SOBRE A PEDAGOGIA FREINET

A Escola Curumim - Campinas, SP, oferece no dia 12 de abril, um Minicurso sobre a Pedagogia Freinet.

Acesse a página da escola para obter mais informações:
http://www.escolacurumim.com.br

As águias não sobem pela escada

    O pedagogo preparara minuciosamente os seus métodos e, segundo dizia, estabelecera cientificamente a escada que permite o acesso aos diversos andares do conhecimento; medira experimentalmente a altura dos degraus, para adaptá-la às possibilidades normais das pernas das crianças; arranjara, aqui e ali, um patamar cômodo para se retomar o fôlego, e um corrimão benévolo amparava os principiantes.
    E o pedagogo zangava-se, não com a escada, que, evidentemente, fora concebida e construída com ciência, mas com as crianças que pareciam insensíveis à solicitude dele.
    Zangava-se porque tudo acontecia normalmente quando ele estava presente, vigiando a subida metódica da escada. degrau por degrau, tomando fôlego nos patamares e segurando no corrimão. Mas, se ele se ausentava uns momentos, que desastre e que desordem! Apenas continuavam a subir metodicamente, degrau por degrau, segurando no corrimão e tomando fôlego nos patamares, os indivíduos que a escola marcara suficientemente com a sua autoridade, como os cães de pastor que a vida treinou para seguir passivamente o dono e que resignaram a não mais obedecer ao seu rítmo de cães transpondo matas e atalhos.
    O bando de crianças retomava os seus instintos e as suas necessidades: uma subia a escada de quatro, engenhosamente; outra tomava impulso e subia os degraus de dois em dois, saltando os patamares; havia mesmo as que tentavam subir de costas, adquirindo até algum desembaraço. Mas sobretudo - incrível paradoxo - havia aquelas, e eram maioria, para quem a escada se mostrava desprovida de atração e aventuras, e que, contornando a casa, segurando-se nas calhas, saltando as balaustradas, chegavam em cima num tempo mínimo, muito melhor e mais depressa do que pela escada pseudometódica; uma vez lá em cima, escorregavam pelo corrimão... para recomeçarem a ascensão apaixonadamente.
    O pedagogo persegue os indivíduos obstinados em não subir pelos caminhos que considera normais. Mas terá ele perguntado a si mesmo, por acaso, se essa ciência da escada não seria uma falsa ciência e se não haveria caminhos mais rápidos e mais salutares, em que se avançasse por saltos e largas passadas? Senão haveria, segundo a imagem de Victro Hugo, uma pedagogia das águias que não sobem pela escada?

C. Freinet, Pedagogia do Bom Senso, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1996, pg. 08. 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O mestre e o aprendiz

     Durante todo o verão, o rebanho de ovelhas ficara na montanha, confiado à guarda do pastor, que de modo algum parecia sobrecarregado com a responsabilidade dos seus mil animais.
    Por Saint-Michel, voltavam para a aldeia. Cada um de nós "apartava" o seu pequeno rebanho, e trinta jovens pastores partiam, em seguida, através dos campos de restolho, ainda ricos em erva verdejante, para passarem pela aprendizagem de condutores de carneiros.
    Tinham-nos ensinado as leis e as regras que aplicávamos ao pé da letra, como o guarda executa as ordens na estrada.
    - Cuidado para as ovelhas não escaparem e estragarem os feijões!
    - Não deixem os cordeiros afastarem-se do rebanho, senão vocês poderão perdê-los!
    - Cuidado com as moitas cheias de cobras e com a luzerna que incha os animais!
    - Não levem os animais para o lado das rochas, pois eles poderiam ficar entalados!
    Outras tantas preocupações obsessivas que não nos deixavam em paz, e nem aos nossos animais: daqui!... dali!... Um pouco mais e teríamos cercado ovelhas e carneiros para não os perder de vista, preferindo trazer-lhes capim e galhos... se eles aceitassem.
    Trabalho de aprendiz que ainda não compreendeu nada do caráter e do comportamento dos seus animais.
    Quanto ao pastor, partia calmamente atrás do seu rebanho. Uma palavra, um grito, lançados oportunamente, e os animais seguiam na direção que o pastor sabia de antemão onde ia dar. Vão passar lá embaixo!... Daqui a pouco vamos encontrá-los acima das barreiras. Esta noite descerão pelas encostas!...
    O pastor dormia, o cão dormia; os animais comiam até se fartar, livremente. Trabalho de mestre que conduz o seu rebanho com uma ciência e uma filosofia cujas linhas eficientes deveríamos procurar, para darmos à nossa pedagogia a quietude e a humanidade próprias das obras conscientes.

C. Freinet, Pedagogia do Bom Senso, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1996, pg. 07. 

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O bom jardineiro, ou o ciclo da educação

     A educação não é uma fórmula de escola, mas sim uma obra de vida.
    Há jardineiros ditos modernos ou científicos que se gabam de obter uma boa colheta, quaisquer que sejam as condições do solo, do clima, da luz ou do esterco. Mas que abundância de enxofre e arseniatos, de inseticidas e caldas! Se isso não for suficiente, escondem-se os cachos de uvas em saquinhos protetores e colhe-se a pera ainda verde, para guardá-la sobre uma camada de algodão onde amadurecerá à vontade.
    O fruto está salvo, e tem bom valor de mercado. Mas está tão impregnado de tóxicos, que se torna veneno para quem o consome. E a árvore que o deu, esgotada e ferida antes do tempo, seca antes mesmo de ter ousado lançar para o céu os seus braços audaciosos.
    É já na semente, ou no broto, que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. Se esse fruto é doente, é porque a própria árvore que o gerou estava esferma e degenerada. Não é do fruto que se deve tratar, mas da vida que o produziu. O fruto será o que fizerem dele o solo, a raiz, o ar e a folha. É deles que devemos cuidar, se quisermos enriquecer e garantir a colheita.
    Se um dia os homens souberem raciocinar sobre a formação dos seus filhos como o bom jardineiro raciocina sobre a riqueza do seu pomar, deixarão de seguir os eruditos que, nos seus antros, produzem frutos envenenados que matam ao mesmo tempo quem os produziu e quem os come. Restabelecerão valorosamente o verdadeiro ciclo da educação: escolha da semente, cuidado especial do meio em que o indivíduo mergulhará para sempre as suas raízes poderosas, assimilação pelo arbusto da riqueza desse meio.
    A cultura humana será, então, a flor esplêndida, promessa segura do fruto generoso que amadurecerá amanhã.

C. Freinet, Pedagogia do Bom Senso, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1996, pg. 07. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Pedagogia Freinet na 1ª Infância - Vamos repensar o Berçário?


Encontros do POLO FREINET
DA CIDADE SÃO PAULO
REPEF- Rede de Educadores e Pesquisadores da
Pedagogia Freinet  
                                                 
TEMA: Pedagogia Freinet  na 1ª Infância:Vamos repensar  o Berçário?
Dia 02 de novembro               -         Das 8:00 as 15:00 horas


Justificativa:
No universo da Educação Infantil com seus atores, crianças, educadores  e famílias, é premente o  desafio  de repensar  os tempos , os usos dos espaços e os currículos da Educação Infantil, visando a qualidade educacional do atendimento a Infância.

Objetivo:
Promover um encontro com Educadores da Infância, com o intuito de construir um espaço de discussão, trocas de conhecimentos e experiências acerca do cotidiano da educação infantil, com ênfase no trabalho especifico do berçário.

Conteúdo:
  • Fundamentos e Concepções da Educação Infantil
  • Contribuições da Pedagogia Freinet
  • Protagonismo de bebês:
- Brinquedos interativos
- Roda Musical com bebês
- Cantinhos no Berçário
- Ateliês de arte com bebês

Metodologia:
O encontro terá o formato de ateliê, que abordará o  tema em facetas   teórico- práticas.
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Local:   Creche Maria de Belém
Endereço:     Rua Monteiro Caminhoá nº 83  ( Em frente a Radial Leste, atrás da  passarela do  Metrô Belém)

Será servido um brunch
Os participantes terão direito a certificado

Investimento:
R$ 30 reais - Podendo ser pago no dia do encontro
(Captação de Recursos de 50% para a Entidade)

Inscrições: e-mail: fecunda@gmail.com
Telefone da Creche: 2796-7526 com Cristiane

Vagas limitadas!
Encontros do POLO FREINET
DA CIDADE SÃO PAULO
REPEF- Rede de Educadores e Pesquisadores da
Pedagogia Freinet  
                                              

TEMA:Pedagogia Freinet  na 1ª Infância:
Vamos repensar  o Berçário?
Dia 02 de novembro               -         Das 8:00 as 15:00 horas


FICHA DE INSCRIÇÃO
Nome:

Cargo/função:

Instituição:

Fone para contato

E-mail:


·    Envie a ficha preenchida para o email fecunda@gmail.com


Apoio:
Centro Social Nossas senhora do Bom Parto

Grupo de Apoio Pastoral Pedagógico – GAPP

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O PERIGO DOS FAZEDORES DE NÓS

    O senhor está me perguntando - disse o velho pastor - se é um trabalho difícil conduzir o rebanho, de Saint-Jean até Saint-Michel, sem perdas nem danos, e garantir gordura boa e pêlo bonito aos animais?
    Não é mais difícil do que manobrar a foice num campo de capim fino, ou carregar sacos de alfazema na albarda dos burros mansos. Só que os velhos pastores guardam os verdadeiros segredos dos seus êxitos e das suas conquistas, e nos orientam para caminhos acessórios, persuadindo-nos de que é necessário conhecer orações e magias, quando apenas o bom senso lhes bastou. Quanto aos carregadores de burros, acrescentam maliciosamente nós supérfluos às cordas da albarda, para nos fazerem crer que há uma ciência dos nós de que são eles os grandes mestres.
    É certo que em qualquer ofício há uma técnica a ser dominada. E é dominada não com truques ou sortilégios, mas segundo leis simples e de bom senso, pois nunca há contradição, entre ciência e técnica, por um lado, e bom senso e simplicidade, por outro. O investigador de gênio é sempre aquele que caminha na direção da simplicidade e da vida.
    E essas leis, todo mundo as compreenderia se, apesar dos traçadores de pistas falsas e dos fazedores de nós, se conseguisse redescobrí-las e colocá-las, como sinais luminosos, nos cruzamentos dos grandes caminhos do conhecimento.
    O que nos atrapalha e nos atrasa nesta investigação científica da verdade não é a dificuldade dos problemas a serem tratados, mas sim a obstinação diabólica com que, desde tenra idade, somos desviados do bom senso, alimentados de Ersatz¹, com que nos estragam o espírito com definições ou invocações, nos deformam o entendimento e a inteligência, levando-nos por falsos caminhos e ensinando-nos a fazer ou a desfazer nós!...
    A verdade é que os nossos mestres e os seus servidores nunca têm interesse em que nós descubramos as leis claras da vida.
    Vivem da obscuridade e do erro... e é sempre apesar deles e contra eles que realizamos a nossa cultura.
    Não cabe a mim dizer-lhe como você poderá descobrir e ensinar essas leis naturais e universais que lhe abrirão depressa, e definitivamente, as leis do Conhecimento e da Humanidade. O que eu sei é que elas existem e que aqueles que as possuem têm todos o mesmo ar de sabedoria e de segurança, de calma e de simplicidade, e de generosidade também, que lemos no rosto dos velhos pastores, nas mãos intuitivas dos curandeiros, nos olhos profundos do sábio, nas decisões e na ação dos militantes devotados, nas palavras dos sensatos... e na espantosa confiança das crianças na aurora da vida.

¹ palavra alemã que significa sucedâneo de qualidade inferior. (N. do T.)
C. Freinet, Pedagogia do Bom Senso, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1996, pg. 05.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

OS CAMINHOS DA VERDADE


    Como eram deliciosos os fins de março da nossa infância, quando os amentilhos floriam nos ramos vermelhos dos vimeiros e as primaveras e violetas nasciam na terra úmida que a neve mal havia abandonado!
    E o barulho que fazíamos, nós, as nossas ovelhas e os nossos cachorros, quando levávamos, para saltar pelos prados novos, nossos animais embriagados de sol e de liberdade!
    Um bom pastor, pensávamos nós, avalia-se pela nitidez dos seus gritos, pelos latidos dos cães e pela decisão com que impõe uma ordem e uma disciplina de que ele é o grande ordenador. É verdade que sentíamos um prazer malicioso em fazer sentir essa autoridade; era uma espécie de inveja inconsciente que nos levava a contrariar o apetite natural dos nossos cordeiros... Ah! então você queria comer brotos macios... toma uma chibatada, para você aprender a se emancipar!
    No entanto, eu fazia uma exceção para a minha querida Negrinha, com os seus dois cabritinhos de brincos, de que eu gostava tanto e que me pagavam na mesma moeda. A eles, eu não tinha de comandar; seguiam-me ou dançavam a sua alegria de viver, numa farândola deliciosa. E se o cachorro tocasse neles, com que emoção eu os defenderia! Com que atenção baixava para eles os talos frágeis que eles mordiscavam, e colhia, nas moitas, os brotos macios que eles vinham comer da minha mão!
    Ficava orgulhoso quando eles se saciavam e me gabava de nunca ter levantado a voz, pois ficavam sempre atentos aos meus gestos e aos meus cuidados.
    Duas atitudes! Duas pedagogias!
    Mas a Escola ri-se da humilde experiência dos pastores! Ela tem os seus imponentes e seculares caminhos, que escritores, sábios, administradores eminentes disseram ser caminhos da verdade: Nada de fraqueza afetiva! Manter a lei! Habituar os alunos a obedecer, mesmo, e sobretudo, quando a ordem dada contrariar suas tendências e desejos. É assim que se formam - se for preciso com as chibatadas e os cães - as personalidades fortes e as almas bem temperadas.
    E se fossem caminhos de ilusão e de erro? Se qualquer velho pastor nos provasse, com a sua experiência decisiva, que nos estamos esgotando em vão numa luta desigual contra a natureza e a vida; se nos persuadíssemos, algum dia, da vaidade orgulhosa desta autoridade formal - material, intelectual e moral -, que o manejo hábil e impiedoso do chicote nos dá! Se reaprendêssemos a acariciar, amar e servir as crianças de caracóis loiros, a segurá-las pela mão nas passagens difíceis, a baixar para elas os galhos que não conseguem alcançar; a nos alegrar ao vê-las satisfeitas, ao fim do dia, com um alimento livremente colhido nas fontes generosas que teríamos feito brotar; se soubéssemos responder aos inquietos apelos dos alunos em dificuldade e nos acalmar com o espetáculo dos saltos de satisfação de seres que sobem até os cumes da cultura, por caminhos que não são forçosamente calvários, mas que são sempre caminhos de vida!
    Se soubéssemos ajudar as nossas ciranças a tornar-se homens!
C. Freinet, Pedagogia do Bom Senso, Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1996, pg. 04.